Minha mãe já me confessou que nasci por conta de um erro de colocação de pronome. A piada é boa. Demorei duas décadas para decifrar. Por isso resolvi fazer Letras, na Unicamp, lá nos anos 80. Também escrevo, desde o colégio. Prosa, basicamente. Nesses último vinte anos, já escrevi peças e as dirigi, dentre elas "ATLÂNTIDA" (1998), um monólogo, com Manuela Soares, a que mais marcou. Com o tempo, além das palavras, aprendi a lidar com panela e forno, fotografia e, às vezes, guia turístico. No começo dos anos 80, ainda no colégio em que estudava, fui monitor de redação, junto com professores legais, como o escritor Luiz Puntel e o estudante de medicina Antônio Palocci, o mesmo que viria a ser prefeito da cidade e ministro. Na carteira de trabalho, sou professor. Hoje, casado, três filhos e um pé de manacá, na varanda, presente do dia dos pais. No dia a dia, aulas de literatura, desde minha estréia, no colégio Grafos (Mococa, Rio Pardo, Itapira e Pinhal), 1986. Bom, depois que saí do Grafos, passei por Anglo, Objetivo, rodei por cidades como Mogi-Mirim, Americana, E. S. Pinhal, Bragança Paulista e Mogi-Guaçu, não nesta ordem. No curso Objetivo, centro de Campinas, formei dupla com Fernando Teixeira (falecido em 2008), nas aulas de literatura brasileira e portuguesa, de 1989 a 1995. Desde 1992, dou aulas de literatura, português e redação, em Valinhos, cidade bem próxima de Campinas.
Em 2008, com colaboração máxima de Matheus Lobo, saiu o clip "Jane 'song". Letra de Yghor Boy. Vejam como ficou. Importante : não desliguem depois do fim da canção...
Publiquei, em 2004, "Raposa", pela editora átomo. Um romance.
Na época, a crítica Fernanada Garrafiel (Rio de Janeiro, "Armazém Literário"), escreveu : " O título do primeiro romance de Carlos Henrique Carneiro - Raposa - não diz respeito ao animal, mas ao personagem principal, humano e humanado pelo autor através da narrativa, toda em primeira pessoa. A alusão fica por conta do homem esquivo, que mostra, ao longo das páginas do livro, fazer juz ao nome que carrega. Assim como a raposa despreza as uvas que não pode alcançar, Raposa transforma a sua literatura medícre em comércio barato. Vende com desprezo o produto de sua falta de talento. Desprezo este que incrementa com sarcasmo e leva para sua intricada vida pessoal e amorosa, desconstruída em acontecimentos inusitados. É por aí que a trama de enreda, levando o leitor a um passeio pela boa literatura, com direito a um desfecho surpreendente. A pesar de estar estreando no romance, Raposa não é o primeiro livro de Carlos Henrique Carneiro. O autor, que é também professor de literatura, já escreveu livros didáticos, voltados para o vestibular, poesia, teatro. Escreveu uma coluna de cultura no Diário do Povo (Campinas), que infelizmente acabou para dar lugar a matérias sobre computadores. O ecletismo vem da capacidade de Carlos Henrique de agarrar as oportunidades de conviver com a arte e a liberdade de escrever. "Gosto mesmo da ficção, por conta da possibilidade de criar. Já escrevi contos, exercito a crônica no meu site, mas já tenho três romances, um apenas publicado. “ Da experiência com livros de literatura, veio a abertura da editora (Átomo) - essencialmente didática - para publicar um romance. “A recepção foi cuidadosa. Havia a preocupação óbvia com o resultado, daí topei bancar parte da produção.” Como professor de literatura, Carlos Henrique não se importa com a cobrança nem com os fantasmas dos escritores que conhece tão bem. “Modéstia às favas, sinto que saí na frente de muitos (risos), pelo retorno que tenho recebido. Tenho confiança no meu jeito de teclar. Acho que sou antes um escritor que dá aulas de literatura, do que um professor que escreveu um livro.” De Raposa, seu personagem, Carlos Henrique carrega a solidão. “Solidão em torno de um mundo de vozes nas estantes. A interlocução literária, o debate corriqueiro... falta isso. O excesso de interação intelectual com as palavras de outros escritores pode gerar loucuras... ou outros livros !” (...)
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William Cereja, escritor e autor de livros didáticos, também comentou "Raposa" :
Prezado Carneiro:
Finalmente um tempo para pôr no papel algumas impressões de leitura e de viagem. Lembro mais uma vez: é apenas mais uma opinião, uma impressão, sem pretensões críticas. Reconheço pontos altos e pontos não tão altos na obra e pretendo falar delas com muita humildade e sinceridade. Antonio Candido falava dos três quesitos fundamentais para se ter um romancista “completo”, excepcional, coisa muito rara mesmo: senso estético, senso sociológico, senso psicológico. Quando um escritor tem um desses três sensos bem desenvolvido, já seria um bom escritor. É difícil dizer se esses critérios ainda são válidos para os atuais rumos da ficção brasileira ou da ficção em geral. Mas também se pode tomar como critério, para qualquer avaliação, a velha dupla de critérios: uma boa história e um bom jeito de contar essa história. Olhando tanto para um grupo de critérios quanto para outro, acho que o que mais se destaca em sua obra é o “jeito de contar”, ou o senso estético (de acordo com os critérios de Candido). De fato, a impressão que tive é que uma obra alimentada por um discurso narrativo altamente sedutor, que quase prescinde de uma história. Sedutor ao menos do meu ponto de vista, que guarda afinidades com o autor do livro: professor e amante da literatura, que se diverte com os trocadilhos criados pelo narrador, pelas aproximações insólitas, pelas ironias, pelas citações, pelos casos curiosos que são lembrados em meio à narrativa, pela obsessão por Vieira, etc. Teria dúvida, entretanto, sobre esse caráter sedutor, quando se trata de um leitor mais leigo, que não consegue deslizar com certa facilidade nesse terreno das letras. Parece mais ser uma obra para “iniciados”. Mas até aí tudo bem, penso eu, pois imagino que não pretenda escrever para massa, para multidões. Tive a impressão, às vezes, de que o discurso narrativo da obra talvez seja um pouco parecido com o discurso didático que o autor da obra deve ter em suas aulas ─ o que me faz supor que sejam aulas deliciosas ─ um discurso de vai-e-vem, de aproximações, ironias, citações, reflexões, indagações, provocações, etc. Também tive a impressão de que a obra tem muito de autobiográfico: o espaço social e cultural de Campinas/Valinhos, aulas de literatura, aulas em cursinho ─ talvez tudo isso tenha criado o compósito de experiências a partir do qual nasceu a obra. (...) Esses componentes que apontei, por si sós, são suficientes para se apostar num escritor. Mas é claro que não há narrador sem uma história. E aí é que está o ponto mais problemático de sua obra, a meu ver. A história, no livro, é o que menos interessa; pelo menos, é o que menos me interessou. A trama, em si, parecia não andar, não deslizar, não engrenar. Era, o tempo todo, vencida pelas incursões do “jeito de narrar”, pelo estilo, que saía vitorioso a cada capítulo. O protagonista parece viver a literatura 24 horas por dia, e essa forma intensa de lidar com o literário contamina o narrador e toda a narração, que é construída a partir desse universo. (...) Em síntese é mais ou menos isso o que eu queria dizer. Gostei da obra, claro, mas fica um sabor de “quero mais”. As perguntas que esse primeiro livro deixa no ar, só você pode responder com novos trabalhos, novas buscas.
Acredito que esses novos desafios o farão trilhar alguns caminhos que o levarão à superação das armadilhas criadas pela obra inaugural. Por exemplo: “Sou capaz de construir um protagonista de um mundo diferente do universo literário em que vivo? Como manter meu estilo fora desse universo? Preciso mesmo ter uma boa história pra contar? Se sim, como seria? Será que o meu gênero é realmente o romance? Ou seria o conto ou o poema?”
Tudo está em aberto. A incerteza disso tudo é que torna a tarefa de escrever uma experiência e uma aventura verdadeiramente única e livre. Voe livre! É o que seus leitores, como eu, mais querem de você neste momento.
Espero que esta simples contribuição não o impeça de voar; ao contrário, espero que o estimule a alçar um vôo ainda mais largo.