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O ESTADO SOU EU

L´Etat c´est moi.
É a frase mais famosa do rei Luís 14, auto proclamado "sol". Lembrei desse desprezível, pois em Timóteo, Minas Gerais, o casal Bernardeth e Cleber foi condenado pela justiça por abandono intelectual de seus dois filhos adolescentes. Desde 2008, os jovens não vão à escola pois os pais querem que eles estudem em casa. É atitude mais irresponsável, hoje. Na escola não se aprende apenas os pontos cardeais ou divisão silábica. A escola é microcosmo da sociedade e lá se aprende a tal socialização, desenvolve-se, no mínimo, a inteligência emocional, relacionamento, descobre-se solução de alguns problemas e, de repente, a primeira lei de Newton.
Tirar crianças de casa é um atitide que rola nos Estados Unidos e hoje atinge um milhão de pessoas que, diga-se, num país de mais de 300 milhões é ninguém. Mas no Brasil, tudo que acontece lá deve servir aqui, então tome coca-cola.
Claro está que nossas escolas (públicas ou privadas) carecem de banho de modernidade e, como já disse que representam a comunidade, sobra violência, sobra descaso, reprovação, medo e o material didático disponível é tão ruim que ainda se usa separar história da geografia e a matemática da física. Até aí, as coisas. Por que a família brasileira não sai à rua para resgatar a escola? É fácil, quando não se tem atendimento médico, chamar o plano de saúde privado. Quando o transporte coletivo está perto do colapso, chama-se um táxi, ou compra-se carro. Quando a escola vai mal, tira-se o filho de lá e ensina-se, na cozinha, o que é viver lá fora.
A classe média brasileira não gosta da escola, quer pular essa etapa, uma vez que lá, por pior que seja, vai se exercitar um olhar para o mundo e, de repente, descobre-se que felicidade não está no cartão de crédito. A classe média não gosta do estado, assim como se permitiu, nesse quesito, a existência de vida nos Estados Unidos, sabidamente um país que não é referência em educação, economia, muito menos política. País das oportunidades individuais (dizem), transforma-se num caos quando o estado não pode interferir na economia, como se viu entre 2008 e 2009. Bonito esse "país de oportunidades".
Insisto : quem crê que educar é apenas engolir o que está nos livros, erra. É ingenuidade, falta de visão do todo. Tomar para si aquilo que é prerrogativa do estado, também é asneira. Pois uma pessoa, quando sai de casa para o mercado ou trabalho, quer ver semáforos funcionando, polícia e lixo recolhido. Mas na hora da contribuição, na hora de fazer a parte alimentando debate sobre educação, a pessoa desaparece e quer ser melhor e maior que o estado. Ainda bem que Luís 14 já virou húmus.

dom henrique, campinas, março 2010
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VAREJÃO

A maçã, na mesa do professor é imagem gasta mas infelizmente duradoura, na rotina das escolas. Maçã caiu na cabeça de Newton, dizem os românticos. Pouca gente acredita nessa lenda, Isaac tinha mais o que fazer do que ficar debaixo de um tufo de folhas, comido por formigas, alvo de uma maçã, provavelmente podre, em sua testa glabra.
Claro que vou lembrar o "gênesis", da bíblia, a quem a maçã é símbolo de pecado, prazer e sabedoria. Santa trindade!
O que é um professor ? O emissor de conhecimentos? Aquele que dá aula? O cara que garante a disciplina da sala? O chato que não dá nota boa? Ou aquele que não conseguiu ser sócio da irmã, na lojinha?
A maçã, pobre fruta que prende o intestino, carrega o mito da sabedoria, do mistério e, no limite, a chance de se discutir reforma agrária.
Muita gente se pendura nos livros didáticos e pouca coisa acrescenta, numa sala de aula, preferindo praguejar contra um "sistema" indefinido, tentando convencer o ouvinte mais próximo de que os alunos não são mais os mesmos, que há desatenção, o celular atrapalha e um bla bla bla que não resolve.
Ângelo, professor de Santa Catarina, me escreve, dizendo que está indignado com um movimento, na escola dele, pelas vítimas do Haiti, mas nada pelos próprios pares, em seu estado, vitimados pelas enchentes regulares, desde 2008. Há quem lembre Paraitinga. Angra. Nas escolas é preciso fazer provocação sim, fazer perguntas sobre a vida cotidiana, desde como econmizar água, até o caminho para aspróximas eleições, sem melindres. Ângelo, bote a boca no trombone. Professor é herói sim e precisa ser agregador. Contudo, há solidão demais no processo educativo, porque os professores pouco falam entre si. Só a maçã não alimenta.

dom henrique, fevereiro, 2010 
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ENSAIOS DE VISÃO

Falo com meus alunos, como no ano passado, a respeito de "Ensaio sobre a cegueira", Saramago. Gosto do livro, feito no final do século 20, traz visão sombria do desconhecimento que cada um tem de si mesmo. Lembro duas coisas singelas e pesadas, nessa história de arte e organismos. "The lovers", Renne Magritte e "A virgem Maria", Manuel Bandeira.  Embora Magritte tenha falecido em 1967 e Bandeira no ano seguinte, são estradas marcantes do olhar preso.
A tela do belga é aparentemente simples, um casal com os rostos cobertos por pano branco. Nos versos do pernambucano, a cobertura é outra...

O poema é assim:

A VIRGEM MARIA

O oficial do registro civil, o coletor de impostos o mordomo da Santa 
         [ Casa e o administrador do cemitério de S João Batista

Cavaram com enxadas

Com pás
Com as unhas
Com os dentes
Cavaram uma cova mais funda que o meu suspiro de renúncia
Depois me botaram lá dentro
E puseram por cima
As Tábuas da Lei

Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova

Eu ouvia a vozinha da Virgem Maria
Dizer que fazia sol lá fora
Dizer
insistentemente
Que fazia sol lá fora.

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Clique aqui e veja (sem piada com verbo "ver") "the lovers".

dom henrique, campinas, fevereiro 2010
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CONTO DE ESCOLA

Em "Conto de escola", Machado retrata um cotidiano de sala de aula, no meio do século 19, quando, sem saber o conteúdo, um aluno acaba pagando uma moeda de prata ao colega, para que tenha sua tarefa completada. Tudo isso dentro de sala com professor dentro. No século 19 imperava o medo, a palmatória, a humilhação, um conjunto sempre ligado àquele aluno com dificuldades no aprendizado. Pouco mudou, desde então.
Segundo a Unesco, o Brasil caiu 12 posições no ranking da educação, neste último ano. O percentual de crianças que chega até a quarta série foi de 80% para 75%. 2010 precisa ser melhor.
O país tem um dos piores índices de repetência : 18%. É grave. É algo como sugerir a morte para aquele paciente que se esqueceu de tomar remédios de seis em seis horas e o fez apenas duas vezes ao dia... Rever assunto, compartilhar outro método de ensino e promover recuperações é uma ordem. Muitos supostos educadores centralizam o trabalho em sala de aula a partir da reprovação possível, já no início do ano, tentando assim, através do pânico, alcançar algum resultado.
O país que mais reprova está longe de incorporar uma cultura diferente daquela ligada às notas ou conceitos (letrinhas para indicar valores, nas provas). Pensar que é importante dar todas as ferramentas ao aluno para que aprenda, parece obviedade, mas não é assim no Brasil afora. Há professores que insistem em crer que o conhecimento está nele, o mestre, unicamente. E é dele que sairá a aprovação ou reprovação. Uma tragédia. O instrumento que mais é usado por professores no sentido de tentar transmitir conteúdos é a tal da nota seguida de perto pela possibilidade de retenção ou, como se dizia em minha adolescência, tomar "bomba". O termo não poderia mesmo ser mais apropriado.
Democracia, liberdade, voz aos alunos, salas com número de habitantes reduzido e melhores condições de trabalho, tudo pode colaborar para que a escola passe a ser lugar saudável e divertido, ao invés do sofrimento para quem, de fato, não sabe a matéria. 

dom henrique, campinas, janeiro 2010
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MORRO : VERBO OU SUBSTANTIVO

É preciso mostrar a seus alunos que ainda há forte preconceito social, neste Brasil cheio de sol e juventude... Todos ainda acompanhamos, com tristeza, claro, o episódio do início do ano, em Angra dos Reis. O soterramento de quase vinte pessoas, numa pousada de luxo, não sai dos noticiários, já são quinze dias, desde então. Motivo : foi a elite atingida. Alagamentos, mortes, tragédias, infelizmente são comuns no país que mal planeja crescimento das cidades. Quando acontece nas periferias, a sanha dos repórteres é mostrar que certa família "perdeu tudo", começando e terminando a lista com bens materiais : geladeira, fogão, sofá... Quando uma família miserável sofre com alagamentos, acabam desabrigados, e fica claro, pelo modo como a matéria é mostrada, que a culpa deve mesmo ser do pobre, que não poderia estar no lugar da água ou, a pensar pelas matérias de alguns jornais, pobre nem deveria existir. No caso de Angra, está difícil admitir que a construção estava no lugar errado... as famílias (ricas), então, sofrem a "tragédia", a fatalidade... o morro, na ilha grande, é sempre mostrado em sua amplitude, passando a ideia de que ele deve ser um gigante mau...Não quero tripudiar com a memória dos que estão em luto, mas a cobertura de nossa imprensa é espantosamente classisita. E, por isso, bem tendenciosa.
Que fazer ? Manter a sobriedade, a distância crítica e sempre questionar o público-alvo das notícias. Não perder de vista que o jornalismo, no Brasil, ainda é ligado ao poder econômico de poucas famílias.
Recomendação : tente ler "Carta Capital" ou mesmo a revista "Piauí"... é um começo.

dom henrique, janeiro 2010
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MEMÓRIAS

Umberto Eco escreve sobre a efemeridade das mídias atuais, em contraste com o que é chamado de "ultrapassado", ou seja, o novo versus antigo. Um cd pode guardar obras primas da música ou literatura, mas não suportariam uma queda do sétimo andar... já o livro...
A memória precisa mesmo ser preservada, porém, as mídias atuais têm se mostrado frágeis demais.
Clique e leia texto completo.

dom henrique, janeiro 2010
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O trabalho infantil é uma muleta a muita gente que vive na zona rural ou perfierias do país afora. Há também a exploração pura e simples, uma vez que quase todo trabalho infantil não recolhe benefícios socias simplesmente porque é ilegal. Pais exploram, patrões idem. Em se tratando de exploração, temos o caso da menina Maisa, que era usada pelo programa Silvio Santos para erguer audiência e angariar patrocínio. Nem preciso contar onde isso tudo foi parar.
Mas contrariando o gosto de quase toda nossa mídia jornalística, achei no site "uol" a notícia boa sobre trabalho infantil. Na verdade, a frase anterior é bem besta, porque se há ainda trabalho infantil, a notícia não é boa, mas o destaque é a queda nesse tipo de atividade. 50% menos crianças, desde anos 90. Clique e leia matéria mais completa.

dom henrique, campinas, dezembro 2009
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UNICAMP SUCUMBE AOS TESTES

O modelo de avaliação dissertativa, nascido em 1986, na Unicamp, em seu vestibular, já era. Para 2010, o aluno que quiser entrar na universidade, enfrentará a sorte nos dados, digo,nos testes. Há quem defenda a validade das questõe de múltipla escolha, mas não vejo assim. Aluno que consegue bons resultados em testes apenas demonstra que sabe fazer testes, nada mais. O periquito do realejo, com um tanto mais de tempo, conseguiria acertar a vogal ou a consoante certa...
Discutir mudanças apenas na superfície é o mesmo que estalar os dedos no barco para atrair o peixe. Não dá certo. Piora. A universidade alega que é necessária uma correção mais simples e rápida. Concordo. Mas o processo todo bem poderia ser outro. A federal de Brasília possui sistema seriado, que permite ao aluno, durante todo o ensino médio, fazer pequenas avaliações. Há testes, mas é um processo que não se resolve em poucas horas através de xizinhos. Feliz é a Getúlio Vargas que está fazendo o exame vestibular oralmente... Sem ironia : feliz mesmo. É honesto.
Que me perdoem os otimistas, mas teste é enganação.

Clique e
leia mais.

dom henrique, campinas, dezembro, 2009
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ATENÇÃO, ESCOLA!


Numa certa altura do Sermão da sexagésima, Vieira ilumina : "Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde".
É século 17, se não se lembra.
Final de ano, em toda escola que se quer consistente, há conselhos, reuniões, balanço geral pedagógico sobre o que cada área fez, quais resultados esperados, como foram os pesos das avaliações e se alguma área arriscou métodos diferentes de avaliação, além do famoso lápis com papel.
Todos temos o que dizer a respeito de rendimento e objetivos a se alcançar, quando saimos de uma sala de aula... e mais ainda quando estamos perto de sair de um ano letivo. Há de haver reuniões, há de haver balanço.
À comunidade, a questão é a mesma. O aluno deve se perguntar : eu aprendi? consegui produzir algo além daquilo que fui levado a fazer em dias de avaliação? participei das aulas ? fui chamado a participar ou só na hora da festa do padroeiro?
Quando se busca excelência em uma insituição educativa, não é necessário oba-oba em festas; encontros com celebridades ou soltar comerciais de tevê com a moça da novela, mas sim a transparência do projeto da escola, quer seja ele apenas trampolim para vestibular, quer seja o da formação intelectual desde a alfabetização. Atirar para todos os lados é acertar a janela da vizinha... só dá confusão, no final.

dom henrique, campins, novembro, 2009
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DEZ DICAS GENIAIS PARA VESTIBULAR USP / UNICAMP

A lista de livros, para as provas das duas universidades, é a mesma.

Questões podem aparecer envolvendo :


1) Iracema e Bertoleza :
ambas as mulheres foram vítimas de portugueses e morreram no fim

2) Soldado amarelo e Vidigal :
dois militares bestas; um prende Fabiano, injustamente, outro prende Leonardo mas não dá conta da malandragem deste

3) Operário e Fabiano :
o personagem do poema de Vinícius parece ser um Fabiano pós-sertão... a família nordestina, como se sabe, parte da caatinga para o sul

4) paganismo (afro/indígena) e catolicismo :
em "Capitães da areia", uma imagem que pertencia à mãe-de-santo Aninha fica apreendida numa delegacia; há confronto entre o segredo de Jurema, as crenças tupi e a capela que vem a ser construída bem em cima do túmulo da índia; em "Auto da Barca..." nota-se o conflito com judaísmo, sem contar a feiticeira Brígida... em "Milícias" também se nota a religião afro que, por ser de origem negra, acaba sendo motivo de prisão (Pataca)

5) crianças :
Leonardo (Milícias) , Bentinho (Casmurro), Pedro Bala (Capitães), Meninos (Vidas Secas) e Moacyr (Iracema)

6) sensualismo / idealização :
a chance de encontrar o poema "Receita de mulher" (Vinícius) e um trecho de Iracema é grande

7) sebastianismo e socialismo (Cidade e as serras) :
na segunda metade da história, Jacinto é tratado como Sebatião, rei, porque ajudou a sanear o ambiente de trabalho rural, em suas terras; é também chamado "socialista"

8) socialismo :
em "Vidas Secas" há sugestão clara de luta de classes, quando Fabiano encara o soldado com uma faca

9) poesia : Gil Vicente e Vinícius são os livros feitos em verso; o primeiro tem apelo mais popular, porcurando atingir vasto público; o carioca bossa-nova produziu poemas de inspiração clássica, mas não foi rigoroso, a poesia é fraquinha, metrificação suspeita, sonoridade tosca...cheio de lugares comuns, agrada no varejo

10) mulheres marcantes : Vitória (Vidas Secas), Comadre (Milícias), Capitu (Casmurro), Rita Baiana (Cortiço) e Iracema.

Boas provas

dom henrique, novembro 2009
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BARROCO

O conjunto de mármore, "Êxtase de
Santa Tereza" (Bernini, séc 17), dá conta de um estado marcante de contraste, no estilo barroco. Um jovem risonho como um Escobar machadiano, segura uma seta fálica bem acima da figura feminina, envolta em panos teocêntricos, ela parece mesmo em êxtase. Em Portugal, como já gravou o barroco Caetano, a tradução boa seria "estou-me a vir", diante de uma cena como a de Bernini. O jovem, apesar das asas cristãs, bem nos lembra Cupido, filho de Vênus, figura tão cara aos amantes universais.
A mulher é dita "santa" pois uma doutura da igreja, reconhecida por seus textos ligados às revelações místicas. O conjunto de mármore e bronze está na igreja Santa Maria de Vitória, em Roma.

dom henrique, campinas, novembro, 2009
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CRUZES

Há vestibulares por aqui, à minha volta. Usp, Ibemec, Getúlio Vargas, Unesp, Unicamp e mais uma dezena de médias ou nanicas. O tema é o mesmo : acertar as questões. Com exceção da Unicamp, cuja prova é toda dissertativa, as demais vão de múltipla escolha. O nome é cruel. Escolhas. Várias escolhas, então pode-se marcar qualquer uma. Dá-lhe cruzinha.
Fazer prova é tormento porque, de repente, num par de folhas de papel decidem-se anos de estudo... o vestibular tem tirado, nessas últimas três décadas, apreço pela sala de aula...Muita gente vai à sala, Brasil afora, pelos cursinhos, em busca de informações precisas sobre este ou aquele vestibular. E as escolas servem esse prato com rara habilidade, já cozido. O aprendizado, quando rola, é mera consequência. Livros didáticos, apostilas, vídeos, resenhas, musiquinhas, recursos de memorização, tudo vale para saber o delta esse sobre delta tê. Causas da primeira guerra, dívida externa dos países da África, estilo literário de João ou a importância muralha da China. Estudantes de ensino médio, quando bons, se especializam em assuntos gerais. Ética, sustentabilidade, reforma agrária ou política nunca entram no baile dos debates nas rodinhas da cantina ou na voz do cansado professor. Há exceções, eu sei...E é daí que saem boas ideias... na interação professor-aluno-comunidade. Atividades em grupo, pesquisa, debate, produção de texto em todas as áreas, grêmio estudantil e sistemas de avaliação transparentes.

dom henrique, novembro 2009
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Ainda o caso "Geyse" : a Uniban resolveu voltar atrás na decisão de se desfazer da aluna. Leia mais.

dom henrique, novembro, 2009

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GEYSE E O ZEPELIN

A Uniban resolveu mesmo dar conta do problema "Geisy Arruda", esta semana... ela é acusada de, supostamente, ter causado confusão nos corredores da escola, com seu vestido curto, pronto para a balada paulistana pós-aula. Quase foi linchada, tendo de ser escoltada para fora do prédio... isso me fez lembrar a "bendita Geni", num verso de Chico Buarque...
Geralmente, quem lida com administração deste tipo de escola jamais passou mais que cinco minutos dentro de sala de aula. Não são pedagogos. Até aí, as coisas. Mas parece que não há conselho educativo na tal
instituição. Parece que conselho de ética tampouco... A saída para alvoroço foi culpar a vítima, dando conta de que ela teria provocado o bando de imbecis que, então, resolveu tripudiá-la. O bando de imbecis continua pagando em dia e são alunos da Uniban. Geyse foi expulsa.

dom henrique, campinas, novembro, 2009
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UM DIA PARA VIVER...

Quando se trata de ensino e aprendizagem, não é possível, ainda, livrar-se totalmente das marcas religiosas que fundaram nosso estado, desde 1500. O absolutismo, a repressão, possibilidade de punição, salas em silêncio, medo, austeridade, uma apenas voz etc etc... A tarefa é árdua, mas necessária, pois com estado laico é urgente respeitar o ir e vir da população, principalmente na escola. Seria bom se professores pudessem abrir mais a guarda da tradição e encarar o diálogo, em sala, ao invés do tal "cumprir o programa". Nessa linha do peso religioso no meio social, lembro de "Carruagens de fogo", filme belo cujo tema também passa pela possibilidade de um atleta inglês precisar correr num dia sagrado à sua fé.  A bondade divina precisaria ser interpretada ao pé das letras ? A magnitude divina precisaria de sacrifícios tais para que houvesse mais vida? É interessante.   
Por que lembrei disto : o dia da prova no Enem, modificada pelo destino de um larápio, vai cair no dia dia de Shabat, sagrado para comunidade judaica, em dezembro. E então ?
A tv do jornal "estadão", fez entrevista com duas estudantes judias e botou no ar.
Vale a pena.

dom henrique, campinas, 30 outubro, 2009
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SAPUCAIA EM PÓ


Todo mundo sabe que o grande esporte da imprensa, hoje, é destacar o Rio de Janeiro como o bolsão do tráfico, a "nova Medellin" etc. Contrariando o que parece óbvio, aconteceu, lá em Sapucaia do Sul (RS), fato inusitado e triste : crianças de uma escola pública, moeram giz para brincar de traficantes, na hora do recreio... A escola até participa de um programa de prevenção junto à brigada militar, mas o dia-a-dia precisa ser tratado entre professores. Não dá mais para chamar especialistas quando o tema urge. Ao invés do debate, a coisa se transforma em espetáculo, o foco se perde. Muitas escolas ainda teimam na postura de enterrar a cabeça na areia para esperar a tempestade passar.
Quem quer ser educador precisa ter discernimento e mergulhar nas questões imediatas de sua comunidade, sem melindre. Falar, produzir material entre classes, entre professores e, depois, com a comunidade. A preocuação desta escola de Sapucaia é legítima, contudo, parece haver mais omissão do que ação. As crianças -- nove e dez anos de idade -- mostraram qual é o sistema de ensino-aprendizagem que fincionou... Uma pena. 

dom henrique, valinhos, 27 outubro, 2009
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15 de OUTUBRO

Hoje é dia do professor, eu sei. Dia de olhar em torno, ver lousa, cadeiras, alunos, livros, debate, ver um tanto história. Parabéns, professor. Parabéns a quem consegue união, a quem consegue criar a curiosidade...a curiosidade é irmã da vontade. Professor, no Brasil, é tratado, geralmente, sob a piada comum do descaso. Mas há professores e há aqueles que ensinam. Ninguém nasce professor, há um processo... saber ouvir, saber ser paciente... e, principalmente, transparente, no meio do processo.
Dar voz ao aluno, dar espaço para o aprendizado. Com ou sem medo. Hoje é o dia do professor. Todos deveriam estar em pausa, no descanso merecido desta data. Ma non troppo.

dom henrique, 15 outubro, 2009
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"TU ERAS PERFEITO NOS TEUS CAMINHOS"
[ Ezequiel ]

Todo mundo conhece a piada do comerciante que pintou uma coruja de verde a fim de vendê-la a um cliente que insistia em obter um papagaio... como estava em falta, foi a coruja travestida de louro. Dependendo de quem conta a piada, o comprador que acreditou no trote pode ser português, mineiro, paulista ou simplesmente corintiano.
Na Faixa de Gaza, um dos lugares mais tensos do mundo (só perde para a 25 de março, em S Paulo), o diretor do zoológico estava incomodado porque não conseguia trazer uma zebra. Como a região é prodigiosa em burros, lá foi Mohammed (o diretor do zoo, não o burro) em busca do equino, símbolo do cristianismo, pois o bichinho teria carregado Cristo, sobre os ramos, na entrada de Jerusalém etc. E Mohammed resolveu a questão, quase por milagre: pintou um burro de branco e preto.
Veja você como ficou a obra.

dom henrique, campinas, outubro, 2009
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O CORTIÇO É MELHOR QUE CAPITÃES DA AREIA


O livro saiu, pela primeira vez em 1890, no Rio de Janeiro.
O enredo envolve uma questão problemátrica da vida dos cariocas de ontem e hoje : habitação coletiva. A promiscuidade, a falta de regras morais, a sedução que amolece caráter, falta de dinheiro, tudo isso acaba por engolfar quantos se acercam do “cortiço”, seja o português Jerônimo,  ao chegar da terrinha, seja a ingênua Pombinha, levada à prostituição, tanto por Leònie, como pela própria omissão da mãe.

"
E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco"

De uma crueza sem igual no século XIX, “
O Cortiço” foi por um caminho bem diferente do que trilhou Machado, na mesma época, ou seja, Aluísio Azevedo viu o conjunto, viu mazelas, descreve diferenças sociais e morais, enquanto Machado fez da análise psicológica o seu trunfo. Aqui, valem os trabalhos sobre Romão, Jerônimo e Rita Baiana. E, dentro de um Rio de Janeiro cheio de figuras distintas, numa época em que reinava a moral cristã acima de tudo, tratar também da homossexualidade feminina é tocar numa questão importante dentro da nossa cultura.
Legal também observar como era a visão determinista, da época, sobre cotidiano dos homens. Segue o estado em que o português Jerônimo iria ficar, depois de ver Rita :  "
Naquela mulata estava o grande mistério, (...). Ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas de fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras, era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar  gostoso, era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, e muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras, embambecidas pela saudade de terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro da sangue uma centelha daquele amor setentrional"

Hoje, o livro causa menos impacto e mais curiosidade, se levarmos em conta que favelas e a exploração humana só aumentaram...O debate sobre moradia, interesses pessoais, literatura como panfleto ideológico vão continuar pelas bocas das salas de aula, espero.

dom henrique, campinas, outubro 2009

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PIEDADE

Falei com meu alunos osbre renascimento clássico, mostrei algumas imagens, telas e esculturas. O destaque ficou para Michelângelo, florentino, nascido no século 15. Na verdade, para duas peças : Davi e Pietà. A desproporção da figura masculina, tanto na mão direita, como na frontalidade da face, chamam atenção dos apressados. Davi possui mais de quatro metros de altura e sugere, ao visitante do museu que recue alguns metros para se ter visão do todo. Sugestão errada. A desproporção é proposital porque permite, de certa forma, que se permaneça perto da estátua de mármore para ter noção da expressão e a da força do conjunto.
Pietà, por outro lado, traz um apelo suave ao conjunto, num bloco único do mármore, expondo uma  mulher e homem, entrelaçados, registrando cena do novo testamento. Contudo, chama atenção a jovialidade de Maria que, no limite, aparenta dezessete anos de idade... A perna esquerda de seu filho está retesada, obrigando o espectador a reparar na posição de seu pé... Cristo pode estar levantando. Pois é, duas cenas, morte e ressurreição, na mesma peça. A matemática e vaidade moveram quase todo o processo de construção da arte da época... E ainda há quem diga, por aí, que "matemática" não é da área de humanidades... aiai.

Para saber mais, clique.

Para conhecer nova "piedade", clique.

dom carneiro, setembro, 2009
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ASSIM NA TERRA, COMO NA TERRA

Falei com meus alunos sobre a decisão do ministério público federal de retirar símbolos religiosos de repartições públicas. Alguns se manifestam a favor da medida, outros se calam... eu acho a medida corretísima e respeitosa, inclusive aos que creem. O estado é laico e prevê respeito, isso é simples.
O país, de qualque forma, possui espécie de dívida com a igreja, porque, aqui, fez o papel do estado, principalmente durante a colonização. Contudo, essa relação já foi vivida e os tempos são outros. Liberdade de expressão, por exemplo,nunca foi perrogativa dos dogmas... que o diga Leonardo Boff. 
Leia opinião contrária, do ministro Gilmar Mendes.

dom henrique, agosto 2009
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MULTIDISCIPLINAR

Na literatura de cordel, João Gomes de Sá e o parceiro Viana contam como Michael Jackson teria chegado ao céu. Impagável.

"Mas São Pedro eu sou um astro
Famoso no mundo inteiro!
Não tem um ato secreto
Para me atender primeiro?
- Aqui é outro processo
Não é aquele Congresso
Lá do povo brasileiro! (...)"

Para saber mais,
clique

dom henrique, campinas, agosto 2009
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O SINAL JÁ BATEU

Na tentativa de melhorar o imponderável, o Conselho Nacional de Edcucação propôs, junto ao ministério federal, uma flexibilização do ensino médio a fim torná-lo mais atraente e interdisciplinar. Não está em jogo acabar com a estrutura de 12 matérias (embora seja meu sonho) mas tornar possível um diálogo entre as áreas. Na proposta do 
CNE há chance de que o aluno possa ter matérias optativas. Até agora, tudo é nebuloso, mas parece boa iniciativa. Melhor que a inação.
Ainda perdura, na vida escolar de muitos professores, a ideia da segmentação como forma de aprendizado. É ruim. Por exemplo, professores de matemática, em geral, creem que o ensino do assunto se dá pelos apenas por números. Professores de física insistem no ensino da matéria por fórmulas e conceitos... há os de português que ainda se pegam na sintaxe de período composto para garantir que ensinam nossa língua. É chato e não funciona. Para piorar, existem livros didáticos que ainda estampam em suas capas as palavras "história", "português" ou "química", dando ideia de que a vida se dá aos pedaços.
Felizmente, o Enem está aí para sugerir outra visão da dupla "ensino-aprendizagem". Há o que melhorar, mas é possível perceber que em cada canto do país, a metodologia se presta às expectativas locais, uma vez que os eixos cognitivos apontam para interdisciplinaridade e um peso maior ao que se conhece como vida cotidiana e cidadã. É Paulo Freire, oras.

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carlos h carneiro, julho, campinas, 2009
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PROFESSOR E DISCIPLINA

Leio na Folha de S Paulo, de ontem, 17 de junho, que um grande colégio de S Paulo, com boas notas na prova do "enem", está refazendo as paredes, nas salas de aula, para evitar a "turma do fundão". É simples : diminui a distância entre lousa e fundo e, conseqentemente, alarga-se a sala. Tudo para minimizar possíveis problemas de indisciplina. Esse mundo é mesmo cruel. Pior : como o tal colégio tem essa boa colocação numa certa prova, há risco de que a prática se  torne modelo. É de chorar. O número de alunos não muda, mas as paredes sim.
Na mesma Folha, é possível ver a seguinte matéria, ligada ao tema:
"Os professores brasileiros são os que mais desperdiçam com outras atividades o tempo que deveria ser dedicado ao ensino. No período em que deveriam estar dando aula, eles cumprem tarefas administrativas (como lista de chamada e reuniões) ou tentam manter a disciplina em sala de aula (em consequência do mau comportamento dos alunos).
A conclusão é de um dos mais detalhados estudos comparativos sobre as condições de trabalho de professores de 5ª a 8ª séries de 23 países, divulgado ontem pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). A pesquisa foi feita em 2007 e 2008 (...)". Clique aqui e veja artigo completo.

Olhem, não é de hoje que escolas constroem salas para suportar até quarenta pessoas (ou mais) diante de um solitário professor que, no limite, dá aula para duas turmas e recebe por uma. Fora o fato registrado acima, quando professores servem como extensão de trabalho administrativo, dentro de sala de aula. Gozado que o contrário parece não acontecer, ou seja, funcionários da secretaria tirarem as dúvidas para próxima redação dos alunos ou, eventualmente, fiscalizarem provas. Como diz a canção ruim : cada um no seu quadrado.

Nosso sistema, em geral, de ensino-aprendizagem sempre foi herança jesuítica, ou seja, um fala, o resto escuta. Disciplina, para muitos, é sinônimo de silêncio. Quem quer silêncio que frequente mais velórios. Fiquei curioso para saber qual critéiro a tal OCDE usou para dizer que uma tal situação é de "bagunça". Eu sei que há casos de descontrole, mundo afora, com violência física e até morte, mas vejam, dentro de sala, qualquer agitação é indisciplina ? O ponto de vista, para tal tema, sempre será o do professor e isso já é um problema. Alunos que questionam, alunos que têm dúvidas podem ser chamados "indisciplinados"?
Não gosto de terminar texto com interrogação, mas não teve jeito.

dom henrique, junho, 2009
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NOTA DO PROFESSOR

Leonel A., de Campo Grande, me escreve e, dentre outras, diz que acha um absurdo alguns alunos errarem contas nas avaliações, em pleno fim de ensino médio. Desconcertado e bravo, chegou a dizer que tiraria mais de 50% da nota de alunos que continuassem assim. Leonel é professor de física.
Sei que é mesmo incômodo receber, na escada do ensino médio, uma avaliação com erros conceituais tidos como básicos. Assim como um professor de português não se alegra vendo alguém escrever "exceção" com "esses" ou, numa avaliação de biologia, o aluno tratar golfinho como peixe. Não creio que Leonel vá mesmo descascar o couro de seus alunos através do número que vai no alto de suas avaliações que, suponho, sejam boas. Se o aluno chega até a segunda ou terceira série do ensino médio inseguro nas continhas, é papel do professor, no mínimo, indicar um caminho para o mundo dos vivos, mesmo que através de um rabisco na folha de prova, reforçando a necessidade de revisão. É necessário que o aluno seja levado a tipos diferentes de avaliação, com pesos proporcionais aos objetivos que se quer atingir, desde fixação de conceito, raciocínio lógico, inserção cidadã, enfim, basta ao professor dosar e escolher. Não é, com certeza, ameaçando com notas baixas, que o aluno acordará, dia seguinte, craque no dois mais dois. A ameaça sempre foi artifício dos mais fracos. Prefira, caro Leonel, o debate, a provocação, um remédio, nunca a pancada.

carlos h caneiro, maio, 2009
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