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MULHERES

Dia 8 é o dia da mulher, mas o homem continua dando cartas, nesse ocidente fundamentalista e masculino. A capa da Folha de S Paulo, deste domingo, traz, em referência ao dia, uma mulher trabalhando numa mecânica de automóveis. É por isso que precisa mesmo enterrar curso de jornalismo. Pra quê estudar? A foto apenas reforça a ideia de que existe trabalho "de homem" e "de mulher". A matéria acaba ressaltando que não é normal uma mulher usar o cérebro para conhecer como funciona um motor de carros. Durante o ano todo, ninguém entrevista homem trabalhando como modelo, florista, professor de ensino fundamental, porque, é óbvio, o homem pode transitar em todos os níveis de trabalho (como deveria ser normal mesmo), mas a mulher não. Bastou chegar ao 8 de março para pipocarem matérias machistas dando conta de mulheres taxistas, piloto de avião ou oficial militar. Uma pena, uma tristeza.
É chato, mas preciso dizer mais : violência contra a mulher. Parece simples, porque há violência onde existe um ser humano. Contudo, a violência contra mulher espanta mais porque sabe-se que a causa única é o fato dela ser o que é : mulher. Isso precisa ter um fim.
Clique e veja o que se registrou sobre o assunto.

dom henrique, campinas, 8 março 2010
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OS LÁBIOS DO GRÃO-CÃO

Minha cabeça dói, nunca vivi isso, assim, com intensidade, nunca tive enxaqueca, muito menos uma casinha no litoral do Chile. Estranha dor...ecoa no crânio. Seria ela uma dor que pensa?
Lembro João Cabral, vítima eterna da dor de cabeça, chegou a fazer uma ode à aspirina. Não sou João, tampouco tomo aspirinas, mas a cabeça dói.
Causas possíveis são várias. Bia Figueiredo, seis da manhã, acelerando monoposto de corrida, pela 23 de maio, em S Paulo (93 quilômetros daqui), o barulho irritou até Maricota e Clementina, as lagartixas da varanda. Barulhão. Resultado: dor.
Amigos confundem dor de cabeça com mau humor, fazem piada ao invés de sugerir guilhotina. Não sei o que é pior. Há outras pessoas, às vezes próximas, que já nascem com dor de cabeça, ranzinzas, acabam reforçando o sofrimento da gente. Não dão chance a explicações, muito menos pedido de ajuda, leem tudo torto, reinventam a roda e, quando podem, destilam acidez sem dó.
Por conta desse incômodo na massa cinzenta, pedi a Mario de Andrade para terminar o texto pra mim. Ele escreveu, "Dor". Eis o trecho :

"Tudo escondi no caminho da corrente de prata
Mas eu venho das altas torres trazido ao facho do Grão-Cão
Lábios, lábios para o encontro em que cantareis fatalmente,
Ameaçados pela fome que espia detrás da cochilha,
A dor, a caprichosa dor desocupada de que desde milhões de existências
Busca a razão de ser"

dom henrique, campinas, 4 de março 2010
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A GRANDE GUERNICA

U
m asteroide está a caminho da Terra. Ele deve chegar em março de 2014, perto da convocação da seleção brasileira, para a copa, aqui no país.
O corpo celeste tem mais de um quilômetro de diâmetro e seu impacto equivaleria a vinte milhões de bombas atômicas. Ou seja, fim do campeonato paulista e da micareta em Salvador. Pelo menos não haveira quaresma e o cheiro horroroso de bacalhau infestando mercados acabaria.
Há 65 milhões de anos, um pedregulho desses aniquilou a vida de lagartixas gigantes, borboletas peludas carnívoras e os avós do Monteiro Lobato.
Para muitos brasileiros, só não pode cair no dia do fim da novela, quando o galã resgata a antiga amada dos escombros de mais um terremoto.
Até 2014 não haveria base na Lua para uma fuga rápida, eu sei. O planeta vai ficar escuro, o frio vai aumentar mil por cento, era glacial, adeus museu do Louvre, adeus praia de Iracema, nunca mais vou ver biguá caçando tilápia, muito menos o Papa jogando aquela fumacinha alucinógena, na missa do galo, fim da diversão. A cervejada eterna de Blumenau teria um fim, assim como o São Paulo Fashion week. Pelo menos a fila da sopa, em Mumbai, terminaria e, finalmente, pararia de passar Cats, no mundo.

Se não acredita em mim, clique e faça as malas.

dom henrique, campinas, 3 março 2010, 4 anos antes do impacto
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A ENCICLOPÉDIA E A PRANCHETA

Joel Santana, dias atrás, foi até a casa do maior jogador de defesa de nosso futebol, em todos os tempos, Nilton Santos, para uma visita e um presente. Quem é mais curioso ou mais velho, sabe que o apelido de Nilton (campeão do  mundo em 1958) era "enciclopédia". Levou a ele, ex-jogador do Botafogo, a taça de Campeão do primeiro turno carioca, a "taça Guanabara". Comoveu não só Nilton, como qualquer ser humano que saiba um tiquinho de futebol. Idoso, o ex-lateral esquerdo está doente, mas ainda saudável na memória de todos. Pontos para Joel.

MACHADO É PÓ DE ARROZ

A Academia Brasileira de Letras, através de sua cúpula, neste sábado, homenageou Joel Santana, técnico de futebol carioca. Deu-lhe a medalha do centenário da ABL. É tônica desta organização laurear figuras de destaque em nossa cultura, independente de seu apego a letras. Foi integrante da casa Roberto Marinho que, como se sabe, nunca fez versos ou romances. Ivo Pitanguy também está lá, médico e cirurgião de nomeada. Gesto interessante este, uma vez que a Academia sempre é vista como centro conservador, elitista e quase sempre distante do mundo. E é. Drummond quis e não quis entrar para Academia; sempre que podia falava dela. Normal e humano. Mário Quintana ria da instituição e acabou sendo deixado de lado também. Para muitos, sentar nalguma cadeira é sinônimo de prêmio de qualidade, o que não é verdade. Paulo Coelho está lá, merecidamente, pois é escritor, brasileiro e muito lido. Só isso basta.
Pois agora, mesmo apenas com medalha, sem direito a cadeira, foi a vez de Joel Santana. Ele fez coro com Marcos Villaça (presidente da ABL) para quem Machado teria sido torcedor do Fluminense. Nelson Rodrigues, carioca da gema, já foi fotografado com a camisa tricolor. Ary Barroso era Flamengo e João Cabral de Melo Neto, palmeirense roxo.
Fluminense é o time da elite, nascido assim, nas Laranjeiras, bairro tradicional, onde morou Aurélia Camargo, lá em "Senhora" (Alencar). Certeza que Machado seria Fluminense.
Joel foi recebido por escritores e um papagaio de pirata, o Ziraldo que ainda não foi eleito.

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dom henrique, campinas, 27 fevereiro, 2010
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QUE BONITO ERA

Ano de copa do mundo de futebol. Gosto do esporte porque é uma arte cênica. Há ensaio, há concentração, ingresso, palco, figurino e público.
Acompanho futebol desde 1970, por conta do óbvio. João Saldanha, até 1969, era o técnico da seleção e escalou meio-campistas para funções diversas. Figuras como Gérson, Rivellino, Pelé, Jairzinho e Tostão eram os meias (camisa 10) em seus clubes. Num breve rearranjo do banal, o time jogou com a clássica linha de quatro zagueiros, depois Clodoaldo no meio (número 5-volante) e os outros cinco faziam história.
Para além da copa de 70, sonho com uma seleção. Meu time de sonhos passa por aí. Eu queria ver jogar.

Gilmar (gol), Djalma Santos, Oscar, Márcio Santos e Nilton Santos; Zito, Pelé, Sócrates e Rivellino; Romário e Garrincha.

Se quiser, coloque a sua seleção no "livro das visitas", vai ser divertido. 

dom henrique, campinas, 23 fevereiro 2010
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SINCRESTISMOS

Qual vida se quer levar? O que vai ser do próximo gesto?
O primeiro conto de "Sagarana" chama-se "O burrinho pedrês". Sabe-se que, ao final, o animal consegue atravessar o rio-mar até a outra borda, usando da própria correnteza violenta. O movimento é parecido com o final de "Inferno", em Dante, pois pelas costas da besta viperina, o poeta e seu amigo Virgílio saem do horrível caminho...
Que maravilha é o paradoxo.

dom henrique, 22 fevereiro, campinas 2010
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VINTE MILHÕES


Eu vi, finalmente, depois de apelos da amiga Consuelo, o filme "Quem quer ser um milionário", de Danny Boyle, filmado na Índia. Todos os ingredientes de vida miserável, numa favela em Mumbai, estão na história que, diga-se, se assemelha a “Cidade de Deus” (Meirelles), cujo personagem central – apesar de não ficar milionário – nasce na favela e ganha a vida honestamente, até o fim.

Jamal, personagem central, sofre de paixão por Latika; tem conflitos com seu irmão que se torna bandido e, vez por outra reencontra partes de seu passado, pelas ruas agitadas, durante o tempo da narrativa (cerca de vinte anos).

Lírico, engraçado (as cenas no Taj Mahal e na chegada do herói de helicóptero são hilárias), tenso, e por vezes violento, o tema envolvendo crianças pobres e adultos insensíveis não é novo.  Há “Filhos do Paraíso” (Irã), “Cidade de Deus”, “Labirinto do Fauno”, “O ano em que meus pais saíram de férias”, enfim, muitos que contrapõem conflito de gerações. “Quem quer ser um milionário” traz fotografia que não cansa e um ator (Jamal adulto) sofrível, envolvido numa trama que compensa sua atuação meio cinzenta. Na verdade, o ator mirim, que faz Jamal no início, dá a nota excelente de desempenho. A pena é o estereótipo da ascensão social a partir da sorte...ou, literalmente, tendo de cair na merda para conseguir chance de ser visto... As respostas a questões difíceis, no programa, baseadas na vivência de Jamal acabam profetizando uma saída premiada, incluindo a amada Latika, perdida na infância e reencontrada no mundo crime, que pode dar reviravolta na vida, ficando com seu amado tímido. Afinal, o que são vinte milhões de rúpias?

dom henrique, 20 fevereiro, 2010
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CAMINHO DO GRAMADO

Estive no museu do futebol, sob o estádio do Pacaembu, neste domingo de carnaval... me espantei com uma fila imensa, nos arredores, mas era apenas para ver o time de Rio Claro...acho que jogava com o Santos, não sei. Na bilheteria do museu, pouca gente... alguns torcedores do jogo que aconteceria horas mais tarde. Um mundo de história e imagens. Seis reais. Lá no campo, com sol e sem telão, mais de quarenta o ingresso. É a vida.
O museu é aconchegante, com mais de um piso, obdecendo as linhas das arquibancadas do estádio municipal. Vídeos que nunca param, fotos, imagens de brasões infinitos, exposição itinerante, troféus, bolas, anjos barrocos, imagens interativas e, obviamente, lojinha.
Nos caminhos pelas alas, o espectador se depara com uma especial, em várias dimensões, depois de banhar-se de histórias mil : o estádio inteiro. Uma brecha na parede do piso superior permite ao espectador ficar numa das arquibancadas, como numa varanda, contemplando tudo, setor amarelo, verde, descoberto, azul, o gramado, o bando de quero-quero e, é claro, as imagens que saem da sua cabeça para o meio do campo. É por isso que existe uma bola na bandeira. Os ingleses inventaram, por isso peço que vá até lá; peço em inglês..."go!"... então grite : "go!"... o mais é poesia com bola na rede.

[ clique e deguste ]

dom henrique, campinas, 17 fevereiro, 2010
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MÃO NA CABEÇA, FREUD

Dizem que terapia é exercício para cérebro, mas nos últimos tempos tem sido mais que isso e, naturalmente, vai procurar combinar as necessidades do corpo aos conflitos dele com a vida em sociedade. Pra começar, não caio na armadilha do "corpo e alma", como se uma coisa existisse por si só, separada dessa outra ("anima") sem forma nem definição. Fim da idade média. O homem, desde Aristóteles, é um animal racional e, aí, já entramos noutro problema com palavras. Por que só ele "racional"? Uma coruja elabora seu trajeto até o ninho, depois até a presa, prepara seu vôo, ataca, enfim, está usando algum tipo de lógica, seu insitinto, digamos, racional. Qualquer bicho articulado (com exceção do Macunaíma) elabora, pensa e age de acordo com seu meio também, mesmo que seja para mudá-lo, como os castores e os humanos. Pensar não dói.
Tanto Lou Marinoff quanto Marc Sautet -- este último já falecido -- defendem o bem-estar do homem pela fiolosofia. Se ainda não conhece, deveria ver "Mais Paltão, menos Prozac", do primeiro, e "Um café para Sócrates", do segundo.

dom henrique, campinas, 11 fevereiro, 2010
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ABAPORU DE CADA DIA

No final de "Iracema", o narrador-poético diz que a índia, prestes a morrer, lembraria a flor do manacá, uma vez que esta soltaria mais perfume, quando retirada do caule. A imagem é tragicamente bela, mas combina com o estilo e a época. Outra poesia trágica é a vida sexual do louva-deus, você deve bem saber o que acontece com o macho...Manter serenidade não é lá marca de um louva-deus, apesar da pose engraçada do inseto.
Em "Diários de motocicleta" (Salles) a relação amorosa se espalha no trio formado por Che, Granado e la Poderosa (moto), num aaventura que vai de fora pra dentro, desde a saída de Buenos Aires, carregados de sacolas e mochilas, até a chegada ao aeroporto de Caracas, já sem a moto e apenas com as memórias do vivido. A dupla vai se despindo dos apetrechos, conforme avança a viagem. Alimentam-se do vivido... às vezes de si mesmos. Coisas.
Oswald de Andrade falava em "antropofagia" cultural para melhoria de nossa arte, lá no começo do século 20. Comer o estrangeiro e digerir o necessário... Martim, guerreiro lusitano, comeu mesmo Iracema e o resto a gente já sabe.
Está confuso esse artigo, eu sei. A vida também é.

dom henrique, campinas, 4 fevereiro, 2010
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Centenário

João Rubinato faria cem anos, neste 2010. João era o nome de pia, porque foi mais conhecido como Adoniran Barbosa. O primeiro nome vem de seu melhor amigo e o sobrenome, uma homenagem ao cantor Luiz Barbosa.  "Saudosa maloca" é um dos sucessos de Adoniran. Nascido na região de Valinhos, S Paulo, o compositor fez parceria com "Demônios da garoa", mas sua canção fica mesmo gravada no apelido do torcedor corintiano.  Maloqueiro e sofredor. Se você que me lê não sabe o que é "maloca", não sou eu quem vai explicar. Se não sabe o que é o Corínthians, aí precisa nascer outra vez. O clube faz cem anos, também, em 2010. Gente como Gilmar (goleiro), Rivellino (meia), Sócrates (meia-atacante) ou Ronaldo (atacante) foram campeões jogando pelo time.
O maior público para uma partida de futebol, em S Paulo, foi num jogo do time. Era 1977. O adversário, a Ponte Preta, aqui de Campinas. Havia mais de 146 mil pessoas no estádio do morumbi. 142 mil só de corintiano. E o time precisava apenas de um empate para ser campeão estadual, após 23 anos... e começou marcando o primeiro e mais comemorado (em número de gritos) gol da história do clube e do estádio. Mas... na Ponte Preta havia um meio-campista sereno chamado Dicá e o time da zona leste paulista perdeu o jogo, gravando mais forte a marca penúria e do sofrimento, em sua torcida. Na partida seguinte, o clube seria campeão, mas isso é uma outra história.
João Rubinato é falecido (1982). Adoniram fica pra sempre.

dom henrique, janeiro, 19, campinas, 2009
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É UM DELÍRIO MESMO

Na falta de um bom livro, não param de surgir explicações alucinadas sobre a tragédia em Porto Príncipe, no Haiti. O cônsul do país, no Brasil, chegou a dizer que os terremotos são culpa da macumba de africanos que moram lá. Pior é um jejuno chamado Pat
Roberson (o que não faz a falta de escola e sexo) que afirma ser o diabo responsável pela tragédia. O imbecil chega a citar a data do pacto: 1804, quando o povo caribenho quis libertar-se da colonização francesa.
Olhem, dizer que se tem fé em vênus, cristo, saci ou no todo poderoso timão é um direito inerente às fraquezas do ser humano, agora tentar fazer de fantasia pessoal uma verdade mundial é muita ignorância. 
Todo mundo sabe que a religião de uma era é apenas o entretenimento literário de outra, como já disse Ralph Emerson.
Irrita bastante esse espaço que a suposta democracia dá a fundamentalistas ocidentais para quem seres humanos são obra do vento e ao vento devem subserviência. No caso do nosso ocidente, não só subserviência como a grana.
Clique e veja a besteira que sai da cebaça de um acéfalo.
  
dom henrique, campinas, 15 janeiro, 2009
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NÓTÍCIA ÓBVIA

Eu ia escrever, no título, "notícia boa", mas achei redundante.
A inflação de 2009 foi anunciada, hoje : 4,3%. Bem abaixo da marolinha.
Clique e confira.

dom henrique, janeiro, 13, campinas
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JUSTIÇA E SANIDADE

Imagine que três pessoas entram em sua sala, sem pedir, começam a espancar seus familiares. Imagine que, revoltado, seu filho reage e acaba matando um dos três invasores. Há perseguições, mortes, exílio, crise econômica. Isso dura mais de duas décadas. Com o tempo, a sociedade se reorganiza e os invasores saem de sua casa, deixando pra trás as feridas em sua família, fora os mortos. Anos mais tarde, quando se propõe amplo debate sobre o episódio dos invasores, os amigos e descendentes desses criminosos querem que seu filho também vá a julgamento. Não é um encanto essa piada ? Pois é isso que se quer fazer com o projeto da "verdade", dentro da comissão pelos direitos humanos que, no Brasil, nunca houve, ligada à tortura. Guerrilheiros e intelectuais já foram a julgamento, na época... torturados, presos, exilados, estruprados, mortos. Algum torturador foi a julgamento? Nunca.
É claro que os setores mais conservadores e raivosos da sociedade iriam se posicionar contra um movimento humanitário do governo Lula. A igreja, por exemplo, insiste em acreditar que o país é um feudo do tamanho de um campo de futebol de botão e prega o fim do debate sobre aborto. Que os religiosos continuem acreditando que os mitos montam as células dentro de um útero, tudo bem, agora interferir negativamente em algo sério como sociedade organizada e livre, é burrice.
Por outro lado, a turma que não vai a escola quer que a "esquerda" (?) seja julgada também, nos casos de violência, durtante a ditadura. Carlos H Cony e Caetano Veloso, por exemplo, sofreram com a ditadura e nunca forma de esquerda...
Boa parte da imprensa está alardeando a turma do contra, dizendo que até a "base aliada" está protestando. A base aliada também é feita de interesses políticos. Protestar é livre. Agora, jogar no lixo a ideia de nossa reabilitação histórica é pior que a morte.

dom henrique, campinas, 11 janeiro, 2010
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BOM VENENO

Li, neste final e começo de ano, "Venenos de deus, remédios do diabo", Mia Couto. Romance narrativo, em terceira pessoa,envolve Sidonio Rosa, um português ainda não formado em medicina, que vai a Moçambique à procura de Deolinda, uma jovem morena que conhecera em Lisboa, um ano antes. Lá, em vila Cacimba, encontra apenas os pais dela, Bartolomeu Sozinho, e Munda, dentro de uma relação árida, um casal desgastado, ele aparentemente doente. Deolinda não está na cidade, mas Sidonio vai ficando, na esperança de reencontrá-la, até ver-se enrededado numa teia de mentiras, dissmulações, histórias políticas, crimes possíveis... a vila Cacimba é lugar misterioso. Fica o registro de boa literatura.

dom henrique, campinas, 4 janeiro, 2010
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